segunda-feira, 23 de abril de 2007

O centro!

Sei que ainda estou devendo a análise das propostas da Segô, mas quando a estava fazendo no sábado, véspera das eleições, o computador deu um pau danado, fiquei receoso de ser alguma praga do Partido Socialista e sosseguei meu facho...volto agora, portanto, com uma análise, se é que se pode dizer assim, sobre os resultados do primeiro turno das eleições francesas. Pelo que vi a imprensa brazuca não está dando uma informação super importante que há todo tempo é colocada aqui: a França agora tem um centro!
François Bayrou é seu nome, UDF seu partido, deve ser Union Democratique Française... O cara tá com a faca e o queijo na mão. Vamos lá..o primeiro turno acabou como toda a torcida do Paris Saint Germain já sabia, Sarkô na frente (31%), Segô atrás (25%) e a Bayrou em terceiro . Mas o cara teve 18%!!! A cosa aqui está repercutindo fortemente. Após a divulgação semi-oficial dos resultados o Bayrou falou aos seus eleitores declarando que agora a França tem um centro!!! Enfim, depois de muito tempo, eles conquistaram um PMDB só para eles!!!!!
Mas onde mora o perigo? A meu ver, em toda a parte. Para mim, a única coisa boa desta eleição até agora, é que o Le Pen ficou em quarto, com "apenas" 10%. Mas estão surgindo diversos fantasmas aqui que me parecem delicados.
O primeiro deles é que, com a existência de um centro, houve a divisão entre a UMP (Sarkozy) e o PS (Segolene) como se fosse uma divisão forte e clara entre direita e esquerda. Não é! Obviamente que o Sarkozy é de direita, mas não nos enganemos ao dizer que Segô representa realmente um forte projeto de esquerda, popular, antiliberal ou mesmo anticonsumismo. Só para constar, uma de suas bandeiras é melhorar o poder de compra do franceses...Parece-me uma política muito focada em um capitalismo doce, ilusão dos reformistas de todo o mundo.
O segundo perigo é esta divisão marcar uma nova fase da democracia francesa à lá Estados Unidos, isto é, bipartidária. Pode parecer exagero meu, mas nas últimas eleições a soma dos votos dos dois primeiros candidatos chegava a uns 30%, desta vez chegou a 55%!!!! Não fosse o Bayrou e talvez tudo se resolvesse no primeiro turno. A esquerda foi muito pouco votada, o PC teve seu menor índice da história (uns 2%)...e não acho que isso fora apenas resultado do voto útil pró-Segô não...
Mas o perigo real e imediato mesmo é o Sarkô ganhar. Com todas as minhas críticas, acredito que a vida na França será menos dura para os pobres caso a Segô vença, além disso a repressão a eles será muito forte caso o Sarkô ganhe e a(s) violência(s) aos imigrantes não será moleza. Portanto, é torcer para a Segô e entrar na campanha fora Sarkô. Todos os candidatos de esquerda já declararam votos a ela, o Le Pen não disse nada nem sei se vai dizer, mas a maioria de seu eleitorado vota no Sarkô...quando ao Bayrou, só dará declaração na quarta, e é a declaração mais esperada da semana, viram como o cara tá podendo? Enfim, segundo pesquisas seu eleitorado está dividido entre os dois do primeiro turno, o que torna sua negociação e decisão na quarta ainda mais importante.
Seguem os links para as análises (nifográficos e mapas) do Le Monde:
Por fim, somando os votos da esquerda, Bayrou e cia, e segundo as pesquisas até agora a Segô alcançaria 46 ou 47% no segundo turno...enfim, é difícil, já disse no primeiro post que o Sarkô ganha, ma acredito na esquerda francesa e acho que ela lutará forte, mas a esquerda sozinha, lembrem-se, só conseguiu poucos votos...

terça-feira, 10 de abril de 2007

86,98,2006...

Para bom entendedor, meia palavra basta! Os números supracitados dão um certo frio na espinha de qualquer um que saiba da existência do futebol...enfim, todos vocês que estão lendo este Blog. Mas antes de comentar sobre tais eventos, é melhor inverter a jogada para explicar um pouco de minhas reflexões sobre o esporte com sangue bretão, mas talento sul-americano...
De uns tempos pra cá, sobretudo quando da mudança das regras do Campeonato Brasileiro para pontos corridos, venho pensando sobre o que pode ser uma caracterização de uma boa equipe de pelota. À época, lembro de muitos afirmando, fosse na imprensa, fossem nos botecos, que o campeonato havia ficado mais justo (?), devido ao fato que os times que possuem uma constância seriam valorizados com a nova forma de pontuação do capeonato...Para mim, esta foi (mais) uma trapalhada da CBF na direção de criar um campeonato cada vez mais comercial. Lembro-me de ver vários noticiários esportivos que começaram a valorizar a estrutura dos clubes como motvo de glória, até o exagero mesmo do Globo Esporte que começou a divulgar, quando mostrava algum time em suas reportagens, o valor da folha de pagamento (!) de cada um, mostrando sua potência futebolística...como se futebol se tratasse de constância, permanência, dinheiro, justiça...nada disso, o futebol sempre foi contraditório, transformador, surpreendente!
Recuando um pouco, fiquei me esforçando por tentar compreender uma nova forma de valorizar uma equipe, de modo que, há alguns anos, valorizo um time não apenas por seu futebol em campo, e nunca pelo seu lastro de ouro, mas por seu espelho mais fiel, sua torcida. Para mim, além da bola rolando haverá sempre o eco das arquibancadas para lastrear um time, este sim um patrimônio inestimável daquilo que o futebol tem de mais belo, a alegria que ele traz.
Parto para o ataque enfim vos contando minha experiência em uma noite que fui assistir com Renata ao amistoso França(1) x Áustria(0). Obviamente que o que acontecia no campo só me deixava cada vez mais sem palavras diante dos ocorridos nas datas que dão nome a esta postagem. Em campo, ao vivo, houve a confirmação do que já havia assistido diante da televisão (antes de cochilar), um futebol sem graça, do pior tipo do chamado futebol novo do corre-corre e sem (g)raça, futebol de resultados, futebol do Parreira, futebol neoliberal, enfim, como preferirem, aquele futebol que o Cruzeiro, por exemplo, gosta de apresentar (ôpa, falta!).
Mas passo a bola para então meu argumento inicial sobre uma equipe e a sua torcida. Alegria, suavidade, tranquilidade seriam as palavras para definir os franceses em um estádio, que é um verdadeiro "programa-familia" por aqui. Com seus gritos de "Allez les bleues!" que são legais no início e chatíssimos depois por serem os únicos, a torcida fica lá, apertando aquelas insuportáveis buzinas e fazendo umas dez "holas" seguidas...Ou seja, a torcida vai ao estádio para se divertir em conjunto, em grupo...As holas se tornam uma grande atração a parte, senão a única, e a toda hora a gente tem que levantar, nem que seja so um braço, para acompanhar a multidão.
Matando no peito, a torcida faz isso e tem que fazer por que não estão lá para ver um bom futebol, esta é a minha conclusão...É impossível assistir direito ao jogo com tanta macaquisse na platéia...Não, eles não estão lá para dar força à equipe, mas para se divertir enquanto torcida, o que me faz concluir que, chutando a bola, a Seleção é incapaz de atrair a atenção dos espectadores, que preferem prestar atenção nas vinte ou trinta holas que fazem durante o jogo (não é exagero)...mas enfim, ganharam da gente em campo em 86, em 98 e 2006...bola na trave!!!!

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Immigration choisie! Aqui e agora!

Antes de tocar no assunto do título desta postagem, acho prudente explicar a motivação da criação deste Blog...Além do motivo mais óbvio, que é a minha necessidade de escrever algo não relacionado ao doutorado enquanto as idéias da tese se confundem na minha cachola, achei importante registrar aqui as impressões que tenho desta experiência incrível que é passar um ano fora do país! Não pretendo apenas esculachar com a França, posto que há milhares de coisas bacanas a serem ditas sobre a terra de Asterix. Mas a gente passa por cada perrengue aqui que considero fundamental refletir sobre algumas questões que percebo como bastante problemáticas.

Dito isto, demos início ao assunto que mais me preocupa, que é a decadência sem elegância da sociedade francesa, ou, por outro ponto de vista, seu endurecimento com total perda de ternura!

Estamos em pleno ano eleitoral, o que torna a estadia aqui super propícia à confecção de certo tipo de diagnóstico sócio-político. Resumindo a situação, existem dois candidatos que concorrem fortemente ao cargo, o Sr. Nicolas Sarkozy e a Sra Ségolène Royal. Aquele assumidamente de direita, uma espécie de Alckmin francês, só que com as maiores chances de ganhar e um pouquinho mais bravinho; esta uma socialista de centro esquerda, com propostas nem lá nem cá, uma espécie de Lula francês.
Vou me deter hoje sobre o Sarkozy, ou Sarkô, como é carinhosamente chamado por aqueles que o malham direto e reto em diversas músicas e vídeos que circulam internet afora (vale à pena fuçar o youTube). Deterei-me nele porque, pela análise dos fatos, ele deve ganhar sem muitos problemas. Lembremos que a França disse NÃO à constituição da Comunidade Européia por motivos muito distantes de qualquer repúdio ao neoliberalismo, e some-se a isso que existe um eterno canditato aqui, o Jean Marie Le-Pen, ultra direitista, tipo um filho de Sarney com ACM, que carrega um certo número de votos que sem dúvida serão deslocados para o Sarkô no segundo turno, garantindo sua vitória.
Os franceses não perdem a pose, mas estão temerosos com o aumento do desemprego,mesmo com alguns pequenos dados de melhora no início deste ano, e, obviamente, colocam a culpa no lado mais fraco, os imigrantes, como era de se esperar.
Daí surge uma das propostas mais comentadas do Sarkô, apoiada por mais da metade dos franceses, segundo pesquisa realizada aqui, de criar um "Ministério da Imigração e da Identidade Francesa"...é isso mesmo, pasmem...Este famigerado ministério cuidaria do que ele chama de Immigration Choisie, ou Imigração escolhida, em bom português, que significa nada mais, nada menos que definir um certo padrão social de pessoas que poderiam pleitear uma permanência legal aqui na França, no intuito de manter um certo "padrão francês de qualidade" na hora de escolher os imigrantes. Vou vos poupar de descrever o real significado disto, tá bom?
Mas eis que entra uma questão muito mais importante. Na minha opinião, pouca coisa vai mudar. Vai até piorar, mas não tenhamos a ilusão que até a chegada do Sarkô ao poder as coisas sejam diferentes . A imigração já é, disfarçadamente, "choisie"...
Como muitos sabem, eu vim para cá com minha querida e amada esposa. Para ficarmos mais de três meses na França, nós, brasileiros, precisamos de tirar um visto ainda no Brasil e, depois disso, tirar um documento aqui, uma espécie de CI (ou RG) de imigrante. Fora todas as questões referentes à burocracia francesa, que certamente será motivo de alguma postagem em breve, temos que desembolsar a quantia, no total para os dois, de 490 Euros (90 no Brasil só para a Renata + 55 para mim aqui + 275 para a Renata aqui - minha taxa é mais baixa pois venho como estudante)!!
Não bastasse a extorsão, a Renata ainda tem que assinar um papel (um no Brasil e outro aqui) declarando que não vai realizar nenhuma atividade remunerda durante sua estada (detalhe, ela já até recebeu proposta para trabalhar, mas não dá mesmo)! Se isto já não é uma imigração escolhida eu não sei o que é! Infelizmente é essa a situação daqui da França, uma tristeza ver uma nação que simboliza tão fortemente no mundo uma luta por uma cidadania plena se afundar nesta lama de intolerância e retrocesso social.
Há muitas reflexões a se fazer a respeito do que falei acima, mas não aumentarei esta já longo post, tentarei me deter melhor nisto ao analisar a vida dos imigrantes "sans papier" como também as propostas da Segô, para vocês verem que não exagero ao dizer que ela está com propostas meio perdidas!
Obviamente que farei uma crítica mais detida sobre o comportamento da esquerda francesa contemporânea, assim como sobre a comida francesa, sua música e, obviamente, sobre seu futebol, que deverá ser assunto do próximo post, por conter um caráter claramente mais importante que todo o resto e que só não inaugurou o Blog porque estou particularmente puto com o desembolso recente desta grana para pe(a)gar o tal documentinho...abraços a todos e agradeço a leitura.